A apoteose de Ronaldo Caiado

A mulher dele permanecia ali, ao seu lado, solidária, em postura marcial, altiva, o rosto afogueado banhado em lágrimas que desciam copiosamente. As filhas dele, misturadas ao povo na platéia, também solidárias, contemplavam-no igualmente com os rostos molhados por copiosas lágrimas. Mulheres orgulhosas do marido e do pai que têm.

Da tribuna do auditório Jayme Câmara, superlotado na tarde-noite desta quarta-feira, ele transformava um revés político no mais glorioso triunfo moral jamais visto na política goiana. Vencido, mas não derrotado. Ele, Ronaldo Caiado, o presidente do DEM de Goiás.

Ao final do discurso, ele deixa o recinto carregado nos ombros de seus correligionários, debaixo de aplausos ensurdecedores. Por um momento, veio-me a lembrança de Vercingentórix depondo sua espada, seu escudo e sua vida nas mãos de Júlio César, o conquistador das Gálias. O grande guerreiro Gaulês se rendia voluntariamente para encerrar uma guerra perdida e, com isto, poupar milhares de vidas, ainda que isto fosse custar a sua própria.

Logo depois da retirada apoteótica do grande Caiado, adentra ao recinto o pequeno Marconi, este pequeno César da política goiana, para colher das mãos do senador Torres o fruto da vitória. Marconi ali estava para anexar o DEM aos seus domínios, concluindo, assim, a sua obra de depredação dos partidos goianos. Mas Caiado, que dali saiu muito maior do que quando entrou, não ficou para o beija-mão. O susserano, trajando sua indefectível camisa azul, vinha para receber as homenagens de seus vassalos, também vestidos de azul, mas não encontrou entre eles Ronaldo Caiado, que trajava camisa preta.

Ronaldo Caiado foi o último a falar aos convencionais do DEM. Assomou a tribuna após transferir a presidência dos trabalhos ao senador Torres. Começou sereno, firme. Enunciou o princípio diretor de sua argumentação: em primeiro a consciência; em segundo a pátria; em terceiro lugar o partido. Ele não era outro senão Ronaldo Caiado, com seus defeitos, suas idiossincracias, suas qualidades. Jactou-se de ter estilo próprio. Acima de tudo, seria sempre fiel a si mesmo.

Falando de si na terceira pessoa, proclamava em voz trovejante: “Caiado não mente, Caiado não trai, Caiado não rouba”. Definia-se como um político agressivo, combativo, desses que prefere a luta mais renhida à acomodação indigna, à rendição sem combate. Um homem que, segundo ele mesmo, cresce na adversidade e que, destituído de sua coerência, fica reduzido a nada.

O neto mais velho do lendário Totó Caiado revelou que Getúlio Vargas havia oferecido ao arrogante oligarca goiano a interventoria do Estado, através do General Caiado, seu parente. Totó, segundo seu neto, teria respondido: “Diga a Getúlio que caí com Washington Luiz”.

O subtexto é este: Caiado não quer, por que dele não precisa, o poder pelo poder. Caiado não é cortesão. Caiado não é súdito; é companheiro.

Toda gente sabe que Ronaldo Caiado foi aliado de primeira hora de Marconi Perillo em l998. Toda gente sabe que Caiado afastou-se do Esmeraldas logo depois da posse de Marconi, por não aceitar que o novo governador, valendo-se do poder de coerção que o cargo lhe assegurava, iniciasse uma campanha de destruição do partido de Caiado, o então PFL. Marconi aliciou lideranças pefelistas sem a menor cerimônia. Nada cedeu ao PFL, apenas prodigalizou alguns cordatos pefelistas com as benesses do poder. O PFL não foi chamado a compartilhar o governo. Caiado observou que sempre é lembrado para ajudar nos esforços de guerra, mas esquecido na hora de se distribuir o butin. Bom para fazer oposição – inadequado para ajudar a governar.

Toda gente sabe que Ronaldo Caiado nunca concordou com a coligação do DEM com o PSDB de Marconi Perillo. Nada pessoal. Caiado apenas não admite os métodos marconistas de fazer política, passando por cima das lideranças reconhecidas para, solapando as bases dos demais partidos, seduzir os fisiológicos com promessas de vantagens.

Tudo que Caiado fez foi pelo DEM.Caiado quis proteger o seu partido, transformá-lo em uma agremiação respeitável. Ele quis limpar do DEM as nódoas deixadas por anos e anos de fisiologismo, oportunismo e corrupção. Ele quis soerguer o DEM da condição de partido quase-nanico, para restituir-lhe a glória de outros tempos, quando era a UDN do lenço branco, a UDN do Lacerda e do Brigadeiro, a UDN do Hélio de Brito e do Chico de Brito. A UDN dos varões de Plutarco, não aquela que se perdeu servilismo da Arena e que traiu seu ideário moralista no fisiologismo do PFL.

Mas o DEM ainda é a encarnação do PFL, o partido que não segura em alça de caixão alheio, que não dá pulo em galho seco, que aprecia servir a qualquer governo e se sente fora do seu elemento quando é forçado à oposição. De nada valeu a pregação de Caiado. De nada serviu a briga dele com Marconi. De nada serviu ele ter se destacado na Câmara Federal e de ser apontado como um dos maiorais do Congresso. Pouco lhe adiantou, no alto clero, usar chapéu de cardeal.

De nada serviu mostrar aos pefelistas do DEM goiano que um partido só se afirma quando prefere a estrada espinhosa da luta à via larga da submissão, que leva à perdição. Um partido se engrandece quando busca o poder por seus próprios meios, o que é diferente de cavar sinecuras em governos sobre os quais não têm influência.

De nada, enfim, serviu a Caiado todo esse esforço doutrinador. O DEM goiano jamais teve a verdadeira compreensão do que um partido político, digno desse nome, deve realmente ser. Um partido político, como bem disse Wilmar Rocha aos convencionais, não é um clube de damas, não é um grêmio literário, não é uma reunião de senhoras na hora do chá. Mas faltou dizer que um partido político, digno desse nome, não importa qual seja a sua cor ideológica, deve ser, antes de tudo, um movimento de opinião pública e um instrumento de ação coletiva daqueles que representa. O DEM goiano não merece Ronaldo Caiado.

Coisa comum nos partidos goianos é o chefe mandar e desmandar. Nada mais fictício do que a “democracia interna”. De um modo geral, os partidos se relacionam unicamente por meio de seus presidentes. Quanto menor a sigla, maior o predomínio do seu presidente ou do “líder maior”. Por exemplo. O PSDB faz o que Marconi Perillo manda. Convenção do PSDB não é para decidir, é para ratificar o que Marconi decidiu. No PMDB, quando Iris decide, a questão está encerrada. No PTB, Jovair Arantes falou, água parou. Muitos pensavam que, no DEM, o que Ronaldo Caiado resolvesse o partido acolheria submisso. Poderia ser assim, se ele quisesse usar os extraordinários poderes que lhe conferem o cargo de presidente. Ele não quis.

Os motivos não importam. Ele não quis. Primus inter pares. Preferiu exercitar a democracia interna. Sustentou seu ponto de vista. Assegurou aos discordantes o direito de livremente manifestar discordância. E finalmente, ante a insistência de todos em caminhar para o abismo, aquiesceu que fossem.

Mas ele não segue para o abismo. Ele falou, do alto da tribuna, que seguirá solitário o seu caminho. Fará campanha sozinho – ele, seus amigos, seus familiares. Não fará o papel do mal perdedor, que se rebela contra a maioria e busca o caminho que lhe convêm. Caiado não subirá no palanque de qualquer candidato a governador. Guardará neutralidade. Mas, advertiu, se os tucanos afrontarem as suas bases, ele romperá a neutralidade. Não foi uma simples advertência; foi uma ameaça clara, aberta. Que o deixem em paz se não quiserem guerra, já que ele está por tudo.

Um antigo provérbio – meio piegas, até – diz que o fogo prova o ouro e a adversidade prova o homem; daí emergirem das cinzas da adversidade os homens de ouro. Aplica-se a Ronaldo Caiado.

Helvécio Cardoso
JORNAL DA IMPRENSA

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