Caiado hoje

Crescimento da influência imobiliária prejudica projetos de mobilidade em Goiânia, diz Ronaldo Caiado

A falta de soluções para o problema da mobilidade urbana e o pouco interesse na preservação de prédios históricos tem como uma das principais causas a crescente interferência do mercado imobiliário em Goiânia. A avaliação foi feita pelo senador Ronaldo Caiado (Democratas) em artigo publicado na edição de hoje do jornal O Popular. No texto, o parlamentar critica a preocupação crescente do poder público com o fator financeiro e a consequente negligência do patrimônio público da capital. “Ninguém mais sabe como poderá manter sua qualidade de vida, nem se poderá resguardar sua história. Onde está a cidade sustentável tão defendida por Paulo Garcia (PT) na campanha eleitoral? Serve apenas para sustentar a especulação imobiliária? É preciso pensar menos no bolso e mais no cidadão”, afirmou. Leia o artigo na íntegra.
Melhorar a mobilidade e preservar nossa história

Ronaldo Caiado

O cidadão goianiense tem tido a sua rotina alterada constantemente por projetos que prometem resolver o complexo problema da mobilidade urbana. São intervenções em avenidas, bairros residências e comerciais que trouxeram muitos transtornos sem deixar como legado os tão esperados benefícios. Estas soluções paliativas alteram a essência de Goiânia e mascaram um dos seus principais problemas, que é a crescente interferência do mercado imobiliário na paisagem urbana.

Estamos assistindo hoje à tomada de construtoras aos bairros residenciais, obrigando moradores antigos a venderem suas casas a preços irrisórios. Modificações recentes no Plano Diretor têm possibilitado este quadro que se agrava a cada ideia de novo empreendimento. Aos poucos, muitas regiões vão perdendo suas verdadeiras características, dando espaço a prédios construídos sem planejamento e que complicam ainda mais o trânsito, além de afetar gravemente a qualidade de vida da população. É o que está ocorrendo com o Parque Amazônia, por exemplo, que aos poucos caminha para experimentar o trânsito caótico de setores como Jardim Goiás, Marista e Bueno.

Não podemos pensar em melhorias na mobilidade urbana sem considerarmos a influência imobiliária nas iniciativas de nossos gestores. Mas o que os responsáveis por estes novos empreendimentos oferecem em troca para reduzir o impacto socioambiental nas regiões? Não se pode esperar que seja apenas uma via de mão única. A parceria entre poder público, construtoras e empresas de transporte coletivo para melhorar o trânsito seria uma saída benéfica para todos. É insuficiente apenas construir uma praça e um parque em frente aos empreendimentos. Onde estão as mudanças estruturais para o trânsito poder fluir?

Um dos pontos mais falhos do Plano Diretor é, não por acaso, a permissão de adensamento em regiões onde o tráfego já é intenso. Hoje assistimos uma pressão cada vez maior para adensar ainda outras regiões que resguardam parte de nosso patrimônio natural. Embora se possa admitir os ganhos com o adensamento e a verticalização, é preciso exibir todas as peças do xadrez.

O Setor Coimbra, por exemplo, teve algumas de suas ruas próximas ao corredor da Avenida Castelo Branco incluídas como aptas à verticalização. Trata-se de uma área que há anos sofre com o grande fluxo de veículos. Lemos recentemente também que a construção do Parque Urbano Ambiental Macambira-Anicuns (Puama) já ocasionou uma nova onda de verticalização nas Regiões Sudoeste e Oeste de Goiânia. No momento em que uma construção é autorizada sem respeitar os limites de andares, retira-se de Goiânia o certificado de uma cidade planejada e concede a ela um outro bem menos glorioso: a de vítima de negociatas escusas.

É grave quando o poder público atua com preocupações financeiras em vez de proteger os seus cidadãos. Some-se a isto o fato de que as mudanças no Plano Diretor causam enorme insegurança jurídica tanto ao cidadão que quer manter sua casa como a quem deseja construir. A qualquer momento todo mundo pode ter seu imóvel desvalorizado, em função de mudanças na legislação.

É certo que boas ideias carecem de planejamento e discussão antes de serem executadas. Algo que raramente acontece ou, se acontece, fica apenas na teoria. Há poucos dias publiquei artigo no O Popular, intitulado Um Patrimônio de Todos, em que falava sobre a negligência do poder público com imóveis históricos de nossa capital. Quando se trata de tentar resolver o problema da mobilidade urbana não é diferente. Tem-se ignorado constantemente nossa história, o meio ambiente e nossos cidadãos por iniciativas pouco proveitosas. Tudo sem antes ouvir quem realmente interessa, que são os moradores.

Ninguém mais sabe como poderá manter sua qualidade de vida, nem se poderá resguardar sua história. Onde está a cidade sustentável tão defendida por Paulo Garcia (PT) na campanha eleitoral? Serve apenas para sustentar a especulação imobiliária? É preciso pensar menos no bolso e mais no cidadão.

Ronaldo Caiado é médico, produtor rural e líder do Democratas no Senado