Captura de Tela 2016-12-31 às 08.30.31

Batismo das urnas é única forma de a classe política recuperar credibilidade, diz Caiado em sua coluna na Folha

Em sua última coluna de 2016 na Folha de S. Paulo, o senador Ronaldo Caiado (GO) reforçou que a recuperação da credibilidade da classe política passa, necessariamente, pela prova de fogo das urnas. O parlamentar reiterou sua opinião de que a antecipação das eleições é fundamental para encurtar o abismo entre Estado e sociedade que foi amplamente agravado este ano, marcado pelo movimento espontâneo do povo que se organizou, foi às ruas e pediu fim da corrupção, melhoria da gestão pública e o impeachment da agora ex-presidente Dilma Rousseff.

“Credibilidade é a palavra-chave. Precisamos readquiri-la. Sem ela, o abismo entre sociedade e Estado irá se aprofundar e o país ingressará de uma vez num quadro de anomia, cujo desfecho é imprevisível. Há chances para uma saída pacífica e construtiva, desde que a classe política se submeta ao batismo purificador das urnas”, destacou Caiado na coluna.

O líder do Democratas no Senado enfatizou que o povo não se sente representado pela classe política e apontou a fragilidade do Congresso e do governo que não tem conseguido fazer as mudanças que o país precisa.

“O povo sente-se traído. Por essa razão, propus a antecipação para 2017 das eleições no âmbito federal, abrangendo Congresso Nacional e Presidência da República. Nada de pessoal contra o presidente Michel Temer, mas é inegável que seu governo, com seis ministros já afastados no rastro de denúncias, e ele próprio já citado nas delações da Odebrecht, fragilizou-se e perdeu sintonia com as ruas. Objetivamente, governo e Congresso não têm autoridade moral para efetuar as reformas indispensáveis: previdenciária, trabalhista e tributária, entre outras. Pelo alcance e profundidade, e pelo sacrifício que impõem à população, exigem credibilidade por parte de quem as encaminha”, disse.

Confira a íntegra da coluna:

O batismo purificador das urnas

O ano de 2016 foi, sem dúvida, um dos mais significativos de toda a história republicana brasileira. Marca o advento de uma opinião pública genuína, à margem da opinião publicada.
As multidões, aos milhões, ocuparam as ruas de todo o país à revelia da mídia, das lideranças políticas e das corporações trabalhistas. Todas, sem exceção, perderam interlocução e credibilidade com a sociedade, que hoje dispensa intermediários.
A população articulou-se pelas redes sociais e uniu-se em torno de bandeiras comuns, sem cunho ideológico. Pedia ética na política, transparência nas contas públicas e, numa palavra, justiça aos maus agentes públicos. Não é mais possível governar o país como antes, nem mais se admite um Estado isolado em torres de marfim.
A sociedade mostrou-se ciente não apenas dos danos decorrentes da corrupção, mas também do mau uso dos impostos, que configuram uma das mais altas cargas tributárias do planeta, sem a contrapartida dos mais elementares serviços públicos.
Se o país exibe péssimos índices na educação e oferece saúde e segurança públicas desqualificadas, não é por falta de recursos, mas pelo desvio e mau uso deles. De toda essa mobilização popular, resultaram o impeachment da presidente da República e o desmascaramento de seu partido, o PT, cuja ação predadora conjugou corrupção e má gestão, em níveis sem precedentes.
O efeito colateral desse processo é o descrédito generalizado da classe política. Os justos (e os há) pagam pelos pecadores. O povo sente-se traído.
Por essa razão, propus a antecipação para 2017 das eleições no âmbito federal, abrangendo Congresso Nacional e Presidência da República. Nada de pessoal contra o presidente Michel Temer, mas é inegável que seu governo, com seis ministros já afastados no rastro de denúncias, e ele próprio já citado nas delações da Odebrecht, fragilizou-se e perdeu sintonia com as ruas.
Objetivamente, governo e Congresso não têm autoridade moral para efetuar as reformas indispensáveis: previdenciária, trabalhista e tributária, entre outras. Pelo alcance e profundidade, e pelo sacrifício que impõem à população, exigem credibilidade por parte de quem as encaminha. As delações em curso, que obviamente precisam ainda ser depuradas, comprovadas e hierarquizadas, lançam suspeitas sobre toda a classe política e as instituições do Estado.
Nem os políticos, nem os ditos movimentos sociais e as corporações falam mais pela população. E esse é um fenômeno que só a renovação de todo o ambiente político-institucional, via eleições diretas, pode curar. Incluo o mandato ocupado por mim no que proponho.
Quem não deve, não teme as urnas, e o povo saberá separar o joio do trigo – aliás, só ele poderá fazê-lo. Não significa que o novo presidente estará investido de dons miraculosos. Mas, com certeza, terá autoridade moral, delegada pela maioria, para encaminhar as mudanças necessárias. E são mudanças urgentes, a serem debatidas e explicitadas no curso da campanha.
As contas do país estão exauridas. A aprovação da PEC do teto dos gastos públicos foi fundamental, mas insuficiente.
Credibilidade é a palavra-chave. Precisamos readquiri-la. Sem ela, o abismo entre sociedade e Estado irá se aprofundar e o país ingressará de uma vez num quadro de anomia, cujo desfecho é imprevisível. Há chances para uma saída pacífica e construtiva, desde que a classe política se submeta ao batismo purificador das urnas.
Nesses termos, 2017 pode ser um ano ainda mais marcante na consecução de uma meta a que todo o país aspira: a refundação da República. Uma República que faça jus a seu nome. Feliz ano novo!